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CELEBRAÇÃO E LITURGIA NUMA SOCIEDADE PLURALISTA
Autor: Rubem Amorese
Artigo publicado na revista Ultimato,
ano XXVIII, nº 233, mar./95.
Uma das características dos tempos em
que vivemos é a pluralidade. Este fenômeno se
caracteriza pela imensa oferta de opções ao
homem moderno. Opções a respeito de tudo. Ele
pode escolher desde a cor da gravata até o sexo do
bebê, passando pela quantidade de estrelas do seu macarrão
ou índice de cafeína no seu "capuccino".
Pode escolher entre centenas de marcas do sabonete (inclusive,
adotar o estilo rústico de não-sabonete), orientações
pedagógicas para seu filho, ideologia da sua revista
semanal, o programa da noite, o sabor do chiclete (deste o
tradicional tutti-frutti, até sabor picanha); pode
escolher morar no campo ou na cidade, o presidente operário,
caçador de marajás ou intelectual; viajar de
jegue, de navio, ou de submarino; pode escolher entre diversos
estilos de vida (tradicional-obtuso, tradicional-esclarecido,
moderno, "prafrentex", revoltado, hippie, culto
de esquerda, culto de direita, descuidado-charmoso, artístico-desligado
etc.), ou mesmo seu próprio sexo, independentemente
daquele de seu nascimento (esta escolha é chamada de
"opção sexual").
A pluralidade se instala no homem moderno como
uma inconsciente necessidade - ou compulsão, mesmo
- de optar, alimentada pela mídia, e sustentada pela
sociedade de mercado. Ao mercado interessa que o indivíduo
esteja sempre pronto a experimentar algo novo, a mudar, a
optar. Ele tem que viver em eterno estado de supermercado.
A vida à sua frente tem que ser composta de prateleiras
abarrotadas. E ele acha isso delicioso.
Este nosso cidadão também faz
opções religiosas. Para isso também há
prateleiras cheias de ofertas. Tem cristianismo tradicional
(em bom estado), usado, avivado, renovado, recondicionado
(mas com garantia de bênçãos); tem esoterismos
(com poções ou sem poções mágicas);
tem bruxas de meter medo (e bruxos simpáticos, também);
tem até peças avulsas para seu "kit"
religioso personalizado.
Ninguém escapa da força da pluralidade.
Assim, quando acorda no domingo, o crente se predispõe
a optar: - O que temos hoje, na prateleira? - lhe vem, inconscientemente
ao espírito. E ele se dá conta que pode escolher
como será sua manhã eclesiástica por
diversos critérios à sua disposição:
a igreja (templo, tenda, cinema, ar-livre, chácara
etc.), o pastor (tradicional, falante, carismático,
pedagógico, paternal etc.), a aula de Escola Dominical
(em classes, sem classe, com ou sem professor, com auxílio
audiovisual, flanelógrafo, revista etc.), o coral (ou
conjunto de rock), os irmãos (fraternos ou arredios,
distantes ou bisbilhoteiros etc.), o tipo de liturgia (dançante
ou imóvel, "quente" ou "frio",
com ou sem direito a arrepios, com corinhos ou com hinário,
para assistir ou participar etc.).
Estabelece-se, assim, inevitavelmente, o mercado
eclesiástico: o pastor acorda no domingo imaginando
o que poderá oferecer de atraente aos seus "consumidores".
Se ele não for criativo, começa a perder a concorrência.
Se isso acontece, sua igreja perde em animação,
perde em movimento; ele próprio perde prestígio
no Conselho de Ministros da cidade (medido por número
de membros ativos) e até na sua capacidade de influir
na política local. Perde, inclusive, em dízimos
e ofertas. Tudo fica comprometido. Desde os projetos missionários,
até seu próprio sustento. .
Este pastor precisa, portanto, estar constantemente
atualizado sobre as novas tendências litúrgicas,
para poder oferecer aos seus membros o que há de mais
moderno e atraente. Ele precisa manter-se "na crista
da onda". Se a "onda" é tremer, vamos
tremer; se é roncar, que sejamos os primeiros; se é
cair para trás, nosso povo já cai há
muito tempo. Ah, o quente é redescobrir as formas litúrgicas
medievais? Ora, já estamos até construindo uma
catedral gótica, cheia de vitrais...
O leitor perdoe se o tom desta conversa vai
ficando um pouco irônico. É que ele ajuda a ressaltar
a parte ridícula de toda essa situação,
no breve espaço de que dispomos. Não se trata
de ser destrutivamente contra tudo o que é novo, mas
de mostrar o perigo potencial embutido na situação.
Na realidade, não me parece um mal em si o pastor se
esmerar em oferecer uma liturgia dinâmica, atraente,
viva e exuberante aos seus irmãos. O problema aparece,
a meu ver, quando a lógica do mercado, acima esboçada,
inverte a polaridade das relações no culto.
Explico isto, com a metáfora da ópera.
Imagine um culto a Deus como uma sessão
de ópera. Talvez esta seja a forma de expressão
cultural mais evoluída e completa já alcançada
por nossa civilização. Naquele momento mágico,
há ambientação, há enredo; há
drama, dança, música solada e sinfônica,
há harmonia (entre músicos e atores-cantores),
polifonia, sincronismo etc. e um público, que fornece
o ambiente. Da conjugação destes e tantos outros
fatores, resulta uma celebração completa, arrebatadora
e bela. Nesse ambiente, todos celebram, de forma intensa,
uma porção de seu patrimônio cultural.
Pois bem. Se um culto é semelhante a
uma ópera, então temos um grande filão
a explorar nesta metáfora. Por exemplo, o que podemos
considerar como "harmonia" do culto (além
daquela estritamente musical)? Quem são os apresentadores,
no culto? Quem é o dirigente? Como se monta o enredo
(o tema da peça)? Será ele uma comédia
(no sentido de alegria) ou um drama? Quem decide? Quem participa?
De tantas perguntas, interessa-nos, aqui, uma,
em especial: quem é a platéia? Na ópera,
há um público que paga o bilhete. E no culto?
Na ópera, esse público aplaude ou vaia, determinando
a prosperidade ou o fechamento antecipado da temporada. E
no culto?
Aí é que está. No culto,
tanto o dirigente quanto a platéia são o próprio
Deus. Todos os demais são apresentadores, atores, músicos,
etc. Todos têm a responsabilidade de apresentar algo
de belo a Deus. E este é o único que pode aplaudir
ou vaiar. Os demais são parte do sucesso ou do fracasso.
À ovelha e ao pastor, cabe, no
domingo pela manhã, perguntar-se: que opções
tenho hoje? E escolher entre adorar ou não. "E
todas as demais coisas vos serão acrescentadas..."
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