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UM CIDADÃO DA JERUSALÉM CELESTIAL
Autor: Paulo Marotta ( pmarotta@fcmmg.br
)
Conheci Janires em 1979.
Ele aparecia de vez em quando nas reuniões de sexta-feira
da mocidade de nossa Igreja em Copacabana, no Rio. Era um
tipo meio esquisito para os padrões vigentes de beleza
e status: magro, esguio, moreno, cabelos desgrenhados, usando
um desbotado macacão jeans. O sorriso inconfundível,
os dentes muito brancos, como que a dizer "você
não me esconde nada", revelava a experiência
e o jogo de cintura dos seus tempos de boêmia, e dizia
alguma coisa diferente, muito forte, muito boa, algo realmente
novo!
Trazia sempre uma música de louvor a
Jesus, ou uma palavra, às vezes dura, que nem os pastores
ou os líderes daquele grupo se arvoravam a dizer. Um
sujeito diferente.
Ele vinha de São Paulo, e da mesma forma
com que aparecia, sumia: ficava um tempão sem aparecer.
Carregava uma bolsa de couro cru, bem surrada. Dentro dela
uma Bíblia daquelas de capa mole, uma muda de roupas
e um monte de cópias em fitas cassete de um tal Rebanhão,
tipo feitas em estúdio de fundo de quintal, que faziam
o maior sucesso no meio da rapaziada.
A capa da fita, em papel cartão acetinado
com a impressão em dourado da silhueta de uma pastor
com um cajado na mão e uma ovelha ao seu lado, dizia
tudo. Na aba menor os títulos: "Jesus, Filho do
Homem", "Baião", "Casinha",
"Arco-Iris" eram uma pequena amostra da genialidade
do seu compositor.
A fita era absolutamente revolucionária.
O repertório, eclético: uma mistura original
de rock rural, tendendo para o progressivo, com canções
bucólicas carregadas de fraseados poéticos.
Nessa época a MPB experimentava um movimento
de renovação decorrente da abertura política.
A música de Janires revelava influências de Zé
Rodrix, Taiguara, Ivan Lins, 14 Bis, Raimundo Fagner, Gonzaguinha,
Mutantes, para não falar de Pink Floyd, Beatles, Genesis
e tantos outros que naturalmente influenciaram a nossa geração.
É importante falarmos do contexto cultural
e musical que estávamos vivendo, para nos situarmos
no tempo e no espaço. Desde o início dos anos
setenta, algumas coisas começaram a mudar também
nos meios eclesiásticos.
Até então, nas igrejas cantavam-se
os hinos dos hinários tradicionais. O órgão
e o piano eram os instrumentos permitidos. O violão
acabava de conquistar sua posição nos meios
jovens. Guitarra, baixo, sintetizador e bateria? Proibidos
na grande maioria das igrejas. Vencedores Por Cristo, Semente,
Elo, Logos, Jovens da Verdade e alguns outros grupos de expressão
foram os embaixadores da nova música evangélica,
introduzindo com sabedoria e maestria uma nova concepção
musical.
Janires foi um dos mais importantes representantes
da segunda fase desta renovação musical. Falava
das coisas comuns da vida. Ironizava os políticos corruptos,
os comerciais da TV, parodiava filmes e novelas, falava das
realidades, de sonhos, fracassos e frustrações,
do pecado e da miséria resultante, para apresentar,
em fulgurante contraste, a estonteante luz, a estupenda graça
e a infinita paz de Jesus Cristo, que transformou a sua vida,
de um quase marginal e presidiário, em um homem livre
para viver a plenitude de uma vida totalmente regenerada.
O Rebanhão era a cara do Janires. Começou
ainda em São Paulo. A primeira formação,
tomara que eu não esqueça ninguém para
não ser injusto, tinha, entre outros, a Lurdinha, o
Mike e o Carrá. Então ele resolveu se mudar
para o Rio. Acho que foi Jesus quem mandou. Chegou com tudo
o que ele tinha: a bolsa, uma mesa de som de 24 canais, um
monte de caixas e amplificadores, e uma disposição
incrível de tocar e cantar Jesus Cristo onde quer que
fosse. Chegando ao Rio, fez logo seu primeiro discípulo:
o Pedro Braconnot, atual e incansável líder
do Rebanhão, discípulo de Jesus Cristo. Um dia
ele e o Pedro foram assistir ao nosso humilde e esforçado
ensaio, e nos convidaram para acompanhá-los. Fomos,
Kandel Rocha na Bateria, André Marien na guitarra e
eu, Paulinho Marotta, no baixo. Assim nasceu a segunda formação
do Rebanhão. Logo depois veio o Carlinhos Félix
com seu brilhantismo, para completar a formação.
Tocar no Rebanhão foi uma das mais fantásticas
experiências da minha vida. Janires era absolutamente
inusitado! Todos tinham liberdade para criar, e apesar de
nossas muitas limitações, aconteciam coisas
interessantes. Essa música nos abriu espaços
e muitas oportunidades para pregar o Evangelho em praias,
praças, teatros, rádios (não posso esquecer
do Paulo César Graça e Paz e da Radio Boas Novas
em Vila Isabel, no Rio, onde tudo começou), TV, jornais,
coretos, estações, e ruas desse Brasil afora.
Muitas pessoas ouviram o Evangelho da boca do Janires, e algumas
delas tiveram suas vidas transformadas pelo poder do Evangelho
de Jesus Cristo.
Três anos depois, Janires sentiu-se direcionado
a mudar para Belo Horizonte, onde começou a servir
na MPC, ao lado do Marcelo Gualberto, do Carlinhos Veiga e
tantos outros. Juntou-se à equipe MPC e formou a Banda
Azul, ao lado do Dudu Batera, Dudu Guitarra e Moisés.
É claro que essa separação foi dolorosa
para nós, creio que para ele também, uma vez
que o Rebanhão foi criação sua e se identificava
tanto com ele.
Janires era fervorosamente apaixonado por Jesus.
Ele tinha visto a miséria de perto. Desde cedo aprendera
a conviver com a marginalidade em Brasília. Ganhava
a vida como músico; logo se envolveu com as drogas,
e o tráfico acabou se tornando um meio de vida. Preso
em flagrante, talvez por ser primário, foi transferido
para o Desfio Jovem de Brasília, onde teve contato
com o Evangelho de Jesus Cristo. Lá, debaixo de muita
oração e da disciplina e do amor daquela equipe,
comandada por uma serva de Deus, teve uma experiência
com Jesus. Ele não contava muitos detalhes dessa época,
mas que tinha um coração ainda muito duro e
abandonou a fé e voltou para as drogas. Algum tempo
depois, agora já em São Paulo, ficou internado
no Desafio Jovem, onde finalmente rendeu-se aos pés
do Senhor Jesus. Sabia que ele não fizera nada de bom
na vida para merecer que alguém morresse por ele. Quando
entendeu que o próprio Filho de Deus morrera por gente
como ele, não teve outro recurso que não entregar-se
com todas as suas forças a Jesus.
Desde então ele descobrira o amor de
Jesus, e se apaixonara por Ele, a ponto de dedicar a sua vida
somente para Ele.
Janires era homem de oração. Sentia
as dores dos que sofriam com as drogas, com o abandono, com
a miséria, com a falta de perspectiva. Era lúcido
e imparcial com os orgulhosos, os que se julgavam superiores.
De raciocínio claro, tinha sempre uma resposta objetiva,
às vezes mordaz, mas incrivelmente oportuna.
Tinha a sobriedade e a firmeza de caráter
de um homem experiente, e a vivacidade de quem tinha alguma
coisa muito nova e boa pra contar.
Considerava-se totalmente dependente da graça
de Deus. Dedicava grande parte do seu tempo ao jejum, à
oração e ao estudo da Bíblia. Gastava
tempo prostrado diante de Deus, intercedendo pelas pessoas
ao seu redor.
Janires não era um homem comum. Ele não
se preocupava em casar, constituir família, arrumar
um bom emprego, comprar isso ou aquilo, essas coisas que têm
tanta importância para nós. Vivia do que produzia.
Sua música, seu artesanato: camisetas e impressos em
silk-screen. Frequentemente recebia ofertas, às vezes
muito boas, mas sempre achava alguém que precisasse
mais do que ele daquele dinheiro. Assim como recebia, dava
generosamente.
Uma vez, dentro do ônibus, um policial
revistando os passageiros, mandou que abrisse a bolsa. Ele
aproveitando a oportunidade, falou para o guarda e para os
outros passageiros da única arma que ele carregava,
que tinha transformado a sua vida: a sua Bíblia. Outra
vez fingiu-se de louco, gritando "Jesus, Jesus!"
para afugentar marginais que importunavam duas moças
em Copacabana. Não tinha medo da "barra pesada".
Falava de Jesus para qualquer um, em qualquer lugar. Não
perdia oportunidades para contar que Jesus tinha transformado
a sua vida.
Janires foi inicialmente rejeitado e até
odiado pelas lideranças eclesiásticas que viam
nele uma aparente ameaça, por ser tão diferente
do comum, mas ganhou o respeito e admiração
de todos os que puderam conhecê-lo de perto, por causa
da autenticidade de seus atos e de sua fé genuína
em Jesus Cristo, e dos frutos que produziu.
Circulava livremente por todas as vertentes
denominacionais, desde a tradicional, até a mais renovada,
e tinha grande simpatia dos grupos católicos carismáticos.
Janires valorizava a unidade da igreja, respeitando as diferenças
e peculiaridades de cada grupo. Por isso ganhou o respeito
e a simpatia de muitos.
Tinha um impressionante domínio do público.
Falava para quarenta mil pessoas com a mesma facilidade com
que apresentava Jesus em um diálogo pessoal. Todas
as suas apresentações seguiam uma lógica.
A seqüência das músicas que cantava era
concluída com uma prédica inteligente, poderosa
e inspirada, totalmente bíblica, cheia de analogias
culturais e temporais que prendiam a atenção
dos ouvintes para o ponto central: a confrontação
com a realidade de Jesus Cristo!
Em janeiro de 1988, foi chamado pelo Senhor
Jesus para a Glória, em um trágico acidente,
quando voltava do Rio para Belo Horizonte. De bens materiais
não deixou muita coisa, além da velha bolsa
e do violão Ovation. Mas um imenso legado, de vidas
transformadas pelo seu testemunho e pelo seu exemplo, e pelas
mudanças que imprimiu na história da música
evangélica contemporânea.
Eu, que escrevo estas palavras, tive o privilégio
de conviver durante cinco anos com o Janires. Posso dizer
que ele, pelo seu jeito de viver e ver a vida, influenciou
tremendamente a formação da minha fé,
da minha atual escala de valores, da minha concepção
do mundo e do Reino de Deus. Digo isso, não para exaltar
a memória de um homem, mas para que Jesus Cristo seja
glorificado!
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