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FAZENDO HISTÓRIA
Autor: Jorge Camargo ( jcamargo@internetcom.com.br
)
Lá pelos idos de 77,
eu, um garoto de 14 anos recém-convertido ao Evangelho
via descortinar-se diante de meus olhos um mundo ainda mais
novo, agora potencializado por um encontro pessoal com Cristo,
o próprio Criador de todas as coisas, reconhecidamente
tornado meu Senhor e Salvador...
Nessa mesma época a música surgia como parte
deste meu mundo de possibilidades e fé. Minha conversão
deu-se num domingo à tardinha, após ouvir um
estudo bíblico do qual não me lembro, mas que
foi concluído com uma oração uníssona
de aproximadamente 30 jovens numa sala abarrotada, seguida
de uma canção singela, que no meu coração
teve o efeito de uma bomba de graça e bondade arrasadoras...
"há momentos em que as palavras não resolvem,
mas o gesto de Jesus demonstra amor por nós...".
Alguns domingos depois já estava perfeitamente
integrado na nova vida, fazendo parte de uma banda recém-formada
de garotos da minha idade, ansiosos por servir do seu próprio
jeito.
Nossas referências? Um grupo-missão
chamado Vencedores por Cristo, que até ali havia nos
brindado com duas autênticas pérolas fonográficas:
"Se eu fosse Contar" e "Louvor", dando
partida a uma autêntica revolução musical
no meio cristão: o que poderíamos chamar de
música cristã contemporânea, e brasileira.
É certo que o início é
ainda tímido. São apenas algumas canções
de autores brasileiros no meio de uma avalanche de versões.
Mas com certeza estão ali lançadas as sementes
de um verdadeiro avivamento no seio da juventude brasileira,
o qual quase ninguém se dá conta de que está
ocorrendo.
À frente da turma, um norte-americano
com um enorme coração, o pastor Jaime Kemp,
fundador de Vencedores. Com ele, um grupo de moços
e moças cruza este país de norte a sul, cantando
em igrejas, praças, prisões, teatros, rádios
e TVs, onde lhes seja permitido. Dentre eles, um ex "rebelde
sem causa", oriundo de uma família de classe média
do interior de São Paulo, que passa a ser como que
o mentor intelectual do grupo. As poucas canções
brasileiras levam sua assinatura, além da maioria das
versões. Ele também empresta a voz a alguns
dos solos, bem como os acordes de violões e guitarras
e um baixo original e "nervoso" (lembro-me das tardes
de domingo dentro do fusca do meu pai que tinha um som potente
tentando tirar as escalas malucas do contrabaixista de VPC...!).
Seu nome é Guilherme Kerr Neto
Ainda em 77, recebi em mãos e ouvi, juntamente
com meus colegas de banda o "De Vento em Popa".
A primeira audição trouxe à alma um misto
de surpresa, perplexidade e êxtase .... de repente era
como se os discos do MPB-4, Milton Nascimento, Ivan Lins entre
outros tivessem se vestido de fé, inundando os corações
com o que de melhor havia em nossa musica, valorizado ainda
mais, agora pela mensagem velha porém eterna do Evangelho...foram
momentos inesquecíveis, quando vibramos ante a constatação
de que o que críamos tinha relevância e sentido
para o nosso tempo e lugar. E lá estavam eles novamente:
Nelson Bomilcar, Dimas Pezato, Sérgio Leoto, agora
reforçados por novos (mas não menos talentosos)
nomes como os de Gérson Ortega, Ed Chagas, Artur Mendes,
Sérgio Pimenta e...é claro, à frente
o Guilherme.
A partir daí, todas essas pessoas que
mencionei entre outras tornaram-se definitivamente referenciais
estéticos e espirituais para a minha vida e também
da minha banda, como estou certo da de centenas, senão
milhares espalhadas país afora.
Três anos depois, por um desses caminhos
misteriosos de Deus, acabei por conhecê-los pessoalmente,
desfrutar da amizade mais intima de alguns e constatar de
perto que os meus referenciais tinham lastro, eram reais.
Esta talvez tenha sido uma das constatações
mais importantes para minha carreira musical e espiritual.
Valia a pena perseverar...
Já em meados dos anos 80, Guilherme que
agora era pastor tornou-se alguém mais próximo,
primeiro convidando-me a fazer parte de um grupo de compositores
na igreja, a fim de "conspirarmos" e trabalharmos
juntos, depois tornando-se um parceiro, emprestando as palavras
que faltavam às minhas melodias que àquela altura
pipocavam.
Foram tempos de muito aprendizado, momentos
preciosos de comunhão, alegria, diversão, viagens
às profundezas da Palavra, tempo de Deus... No final
da década nossa convivência diminuiu de intensidade
mas o amor cristão que sempre nos uniu tem crescido
à medida em que vejo o quanto sua vida e de sua família
tem sido instrumento de Deus para abençoar à
minha e de minha família.
Guilherme não foi apenas o rebelde sem
causa convertido ao evangelho que tinha talento para escrever
e gravar canções. Deus o tem presenteado com
muitos dons e habilidades com os quais tem abençoado
a igreja brasileira (e mais recentemente outras partes do
mundo). É um pregador de extrema profundidade, além
de um artesão das palavras, responsável por
livros, poemas e algumas das letras mais memoráveis
do nosso cancioneiro. Como se não bastassem essas qualidades,
tem se lançado à árdua tarefa de tocar
uma produtora e editora, a GKerr, responsável por registrar
parte de sua obra e de outros companheiros de luta.
Num país sem memória, cuja atitude
reprovável nosso meio evangélico insiste em
copiar, a trajetória de trabalho e vida do Guilherme
é um exemplo a ser seguido. Muitos o chamam entre outros
de dinossauro da musica gospel. Não gosto deste título.
Primeiro porque pode expressar um certo ar pejorativo. Dinossauros
são animais extintos que fizeram parte de uma pré-história
e que hoje só têm valor para efeito de pesquisa.
Nada mais longe da verdade em se tratando de musica cristã
contemporânea brasileira. O trabalho do Guilherme
tanto em retrospectiva quanto o atual é de extrema
relevância para a igreja e por que não dizer
para o povo brasileiro, na medida em que é fundamentado
na mensagem do evangelho, indo fundo em questões polêmicas
como a injustiça social e o aborto, e em temas teológicos
da maior importância como graça e cura, entre
muitas outras abordagens.
De suas centenas de canções, como
não se lembrar de
"...ah, como é bom poder aos pés
da cruz depositar este meu fardo pesado árduo de carregar...";
(Mente e Coração - 1975)
Ou de clássicos como:
"Quando a glória do Senhor for vista
por toda vista em todo lugar quando a glória se perder
de vista como as águas cobrem todo mar..."; (Quando
a glória - 1980)
Ou ainda,
"Ao amado de minhalma cantarei fica
bem cantar louvores a Jesus como sóis de intensidade
em plena luz tal a glória do amado eu cantarei..."
(Ao Amado - 1985)
Entre inúmeras outras....
Concluo dizendo sobre o "dinossauro"
Guilherme, que ao contrário do que este apelido possa
comunicar, sua contribuição maior à igreja
e ao país ainda está por vir. Toda sua experiência
musical, literária, missionária e pastoral há
de influenciar e abençoar milhares por muitos anos.
É meu desejo e minha oração,
lembrando as palavras de Jesus: "Não foram vocês
que me escolheram; pelo contrário, fui eu que os escolhi
para que vão e dêem muito fruto..." João
15:16.
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