|
DESABAFO DE UM PRESBÍTERO
Autor: F. Solano Portela Neto
Presbítero na Igreja Presbiteriana de Santo Amaro
Artigo publicado na revista Ultimato,
ano XXVIII, nº 233, mar./95.
Observações sobre
Ritmos e o "Louvor" na Liturgia Ou Desabafo de
Um Presbítero, não-tão-Velho-Assim, à Beira
da Surdez
Alguns anos atrás um
jovem escreveu-me perguntando qual a minha opinião sobre a utilização
de cânticos com ritmos mais acentuados, na liturgia, e sobre o período
normalmente chamado de "louvor", em nossas igrejas. Na realidade,
a pergunta dele foi: "São todos os ritmos apropriados ao louvor,
na igreja?".
Para tratar dessa questão, eu poderia ter
entrado no chamado "Princípio Regulador", que descreve
a orientação do culto reformado,
no qual somente as coisas diretamente comandadas por Deus devem fazer
parte da liturgia. Ocorre que, tomado literalmente, não existe
uma única igreja nossa que se enquadre na interpretação
mais rígida do "Princípio", mesmo aquelas pastoreadas
ou freqüentadas por seus mais ávidos proponentes. Até
nas mais conservadoras encontramos o coro da Igreja, devidamente fardado
sob o nosso escaldante calor tropical, entoando belos hinos ao Senhor
- alguém pode me indicar onde isso está prescrito no Novo
Testamento? Mesmo em nossas igrejas co-irmãs da Escócia
- supostas praticantes coerentes do "princípio regulador";
aquelas que defendem que
o Antigo Testamento não tem nada a nos dizer sobre a liturgia do
Novo Testamento, que são contra a utilização de instrumentos
musicais e onde somente os Salmos são entoados, não existe
coerência. Os Salmos são cantados, porém com músicas
e métricas
geradas por mentes de cristãos que viveram milênios após
a escrita dos textos bíblicos e as letras são adaptações,
para se enquadrar na métrica. Isso sem falar que a tentativa é
de uma liturgia neo-testamentária, que, na parte da música
é totalmente dependente do Antigo Testamento - pois lá é
que encontramos os Salmos. Nessas igrejas, todas as palavras dos Salmos
devem ser cantadas com fervor, mas se encontramos aqueles trechos que
falam dos instrumentos musicais temos que ignorar tanto o texto como a
eles, e considerando-os parte de uma outra era - dá para perceber
alguma incoerência nisso? Recorrer, portanto a um exame aprofundado,
complexo e possivelmente infrutífero, na definição
e aplicabilidade do "princípio regulador", não
responderia a questão, traria outras à tona e é uma
reflexão necessária que tem que ser levada a cabo em outra
arena. Preferi, portanto, responder o assunto dentro do direcionamento
geral que temos nas escrituras e do senso comum que Deus nos concedeu,
em vez de invocar nossas raízes históricas.
Quando procuramos na Palavra de Deus não encontramos restrição
ou classificação intrínseca de ritmos, como existindo
os que são "maus", e os que são "bons".
Sei que inúmeros livros têm sido escritos, no campo evangélico,
sobre as raízes malévolas de certos ritmos e é certo
que os ritmos estimulam as pessoas a diferentes estados de espírito,
mas permito-me desconfiar das conclusões supostamente científicas
e das conexões traçadas por tais trabalhos. Na maioria das
vezes temos apenas uma coletânea de opiniões pessoais e ilações
infundadas. Às vezes, somos levados à dedução
de que o único cântico admissível na igreja seria,
preferencialmente, o gregoriano, de alguns séculos atrás,
sem muita variação musical ou harmonia. A realidade é
que a Bíblia parece aceitar a utilização de ritmos
na adoração. Com certeza existiam os Salmos "mais agitados"
e os "mais lentos'. Independentemente de tratarmos de "liturgia
do VT" ou "do NT"; do templo, da sinagoga ou da igreja
primitiva, Deus
permanece o mesmo e o seu agrado/desagrado não deve ter sido modificado
na Nova Aliança. Assim, qualquer investigação sem
idéias preconcebidas, verificará que instrumentos diversos
e variados foram utilizados pelos fiéis e aceitos por Deus, na
adoração de sua pessoa. Como já frisamos, entretanto,
independentemente da letra, existe uma empatia entre melodia e ritmo,
e o estado de espírito provocado nos cantantes/adoradores. Ou seja,
um ritmo agitado em uma hora de contrição é uma contradição
de bom senso (algo há muito perdido em nossas igrejas). Não
deveríamos precisar de uma profunda exposição teológica
para substanciar isso. Um ritmo lento, ou em tom (clave) menor, numa ocasião
de festa, de acampamento, por ocasião de uma caminhada, é
também uma contradição de bom senso. Quando esse
julgamento é quebrado, na igreja, faz-se também violência
aos que
estão sinceramente procurando adorar. O Salmo 33.3 nos orienta
a cantar "com arte" (qualidade, propriedade, musicalidade, harmonia)
e "com júbilo" (entusiasmo). Isso nos indica que intensa
qualidade musical deve ser objetivada no louvor a Deus e, por outro lado,
que é um erro equacionarmos espiritualidade, com um cântico
"morto" destituído de entusiasmo, sem o envolvimento
de todo o nosso ser.
A maioria dos Salmos possui títulos que grande parte dos eruditos
bíblicos considera como sendo parte do texto original. Essa
conclusão ocorre não somente porque se encontram nos manuscritos
mais antigos, como também porque muitos estão incorporados
ou intrinsecamente ligados ao texto, mas também porque outros livros
bíblicos (Exs.: 2 Sm 22 e Habacuque 3) trazem tanto salmos como
os seus títulos em seus textos inspirados. No livro dos Salmos,
os títulos, muitas vezes, classificam aqueles cânticos quanto
às diferentes ocasiões nas quais deveriam ser entoados.
A indicação parece ser a de que existiam melodias e ritmos
próprios para cada situação, por exemplo: "cântico
de romagem [marcha]" (Salmo 120);"salmo didático, para
cítara" (Salmo 53); "para instrumento de corda"
(Salmo 4); "para flautas" (Salmo 5). Cada dirigente de música
ou líder eclesiástico, em nossas igrejas, deveria levar
essa questão em consideração utilizando a massa cinzenta
que Deus lhes deu para discernir os ritmos apropriados e impedir aberrações
na liturgia.
No que diz respeito à letra, as Escrituras dão considerável
ênfase à linguagem dos cânticos. Em Efésios
5:19, a força da
prescrição está na comunicação que
os cânticos devem apresentar: "falando entre vós com
salmos, entoando e louvando de coração ao Senhor com hinos
e cânticos espirituais". Ou seja, é totalmente destituído
de valor o cântico no qual não existe concentração
na letra, ou quando esta não reflete os ensinamentos da Palavra,
ou quando é entoado mecanicamente, só pelo ritmo ou melodia.
A passagem paralela, em Colossenses 3:16, também enfatiza o aspecto
de comunicação e exortação através
dos cânticos, sempre fundamentados na Palavra de Deus (ou, como
traz o texto, na Palavra de Cristo):"Habite, ricamente, em vós
a palavra de Cristo; instruí-vos e aconselhai-vos mutuamente em
toda a sabedoria, louvando a Deus, com salmos, e hinos, e cânticos
espirituais, com gratidão, em vosso coração".
Não resta dúvida, pois, que as letras, ou as palavras, devem
refletir os ensinamentos bíblicos e comunicar coisas inteligíveis
aos participantes. Hinos, corinhos, cânticos que não comunicam
ou que têm palavras antigas, anacrônicas, obsoletas, obscuras
ou
hebraismos / helenismos desconhecidos dos que cantam e/ou ouvem -- fogem
à característica bíblica da adoração,
na qual a comunicação é parte importantíssima.
Vale a pena, portanto, perguntarmos, será que todos sabem, mesmo,
o que é El-Shadai? E o que deveríamos pensar do "...lá,
lá, lá, lá..." tão freqüente nos
cânticos contemporâneos? Estão comunicando o que?
O grande problema contemporâneo que encontramos, acredito, reside
em dois pontos cruciais: (1) Um anacronismo enrustido de uns - esses acham
que algo para ser bom, cristão e próprio tem que ser velho
e maçante; (2) Uma ingenuidade gratuita de outros, que, se deixada
ao bel-prazer, vira arrogância e descaso pelo bem estar espiritual
dos demais irmãos. Esses demonstram desconsideração
para com a sanidade estética, mental e auditiva dos fiéis.
Esses ingênuos arrogantes, aceitam QUALQUER RÍTMO, desde
que "cristianizado" ou "biblicizado" - como sendo
legítimo e apropriado a qualquer hora. O mais aberrante é
a mistura indiscriminada de ritmos, um atrás do outro, sem uma
direção ou conceito maior de que o objetivo global é
levar os fiéis aos diversos estágios de adoração
com transição suave e racional, entre um momento e o seguinte.
É nesse sentido que o momento de "louvor" torna-se, para
muitos, uma verdadeira "hora da tortura". É verdade que
muitos participam ativamente, mas são inconseqüentemente liderados
por dirigentes que não colocaram o mínimo esforço
na seleção e verificação do que seria cantado,
e nem
se preocuparam na adequação dos cânticos com o momento,
ou local. Isso sem falar na existência de verdadeiras "trash
gospel songs", que não passariam no mais brando teste de qualidade
musical, sob qualquer critério, mesmo o secular, não evangélico.
Em outras palavras, a tônica atual é de espontaneidade, como
se espontaneidade fosse sinônimo de "espiritualidade".
Nem a rigidez
estéril e cadavérica é "espiritual" nem
a aleatoriedade desregrada. A ênfase bíblica nos levará
mais para uma liturgia planejada e
estruturada de adoração a Deus, do que um desenvolvimento
aberto, definido "na hora". Mas, nos dias de hoje, o momento
de louvor é levado como se fosse uma hora independente de "vale
tudo" divorciado dos demais aspectos do culto. Reconhecemos que,
às vezes, pastores e líderes criteriosos se preocupam com
as palavras dos cânticos. Isso é bom e necessário,
mas não é o suficiente. Quem está fazendo a seleção
e a adequação dos ritmos (não me refiro a banir marcação
rítmica, pura e simplesmente, como já qualifiquei acima)?
Quem está preocupado com a qualidade musical? Quem está
selecionando os cantores (normalmente, canta quem quer ou se auto-impõe,
quer tenha voz, quer não)? Quem está orientando os líderes
da "hora do louvor" para que sejam líderes de cânticos
(se têm competência para tal) e não fontes de sermões,
puxões de orelha em irmãos de cabeça branca, ou passíveis
de arroubos "espirituais" que, em muitas ocasiões, contradizem
todos os ditames doutrinários da denominação que
os abriga? Quem tem a mão no botão de controle do volume?
É necessário que toda a congregação tenha
de ficar refém e à mercê da
sub-sensibilidade auditiva de alguns? Acredito que podemos ser consideravelmente
abrangentes na nossa aceitação de ritmos e
melodias. Creio que podemos louvar a Deus de muitas maneiras e formas,
expressando toda a variedade recebida dele, em nossa
formação cultural e nacional. Mas louvor é coisa
séria e essas questões acima não podem simplesmente
ser ignoradas. Muitas igrejas não deixariam um pastor qualquer
subir no seu púlpito e pregar um sermão aos fiéis.
Exigem preparo, referência, anos de seminário, aprovação
por um presbitério, tutores, orientadores, testes, etc. Mas escancaram
as portas para o doutrinamento e a palavra de autoridade advinda de pessoas
que podem até estar cheias de sinceridade, mas igualmente repletas
de inexperiência e falta de preparo para orientarem doutrinariamente
o povo de Deus.
Uma outra questão, que tem que ser aferida, é a utilização
de músicas conhecidas com letras evangélicas. Sabemos que
isso ocorre
nos hinos, de uma forma geral. Por exemplo, nosso antigo hino: "Da
linda pátria estou, bem longe..." é uma canção
folclórica Norte
Americana, bem como o Hino No. 113: "Achei um bom amigo". Assim,
muitos outros hinos nossos procedem do folclore de outras nações;
a música Italiana "Sole Mio" já serviu para várias
versões de hinos. Entretanto, quando a música utilizada
é contemporânea demais, é impossível divorciar
a letra original do que está sendo cantado. Por exemplo, já
cantei várias vezes, em diversas igrejas, a letra de "glória,
glória, aleluia..." com a música de "Asa branca".
"Casa" direitinho - a métrica é idêntica.
Só que toda vez que canto só me lembro de "Asa Branca"
e de Luiz Gonzaga. Dita o bom senso que essa situação não
conduz à plena adoração. Só essa constatação
bastaria para mostrar que não é sábio trasladar músicas
contemporâneas, de outras canções, para cânticos
eclesiásticos. Mas existe ainda uma falta de gosto total, de propriedade,
de sabedoria e de avaliação do ridículo com transmutações
na qual a associação é com ritmos e músicas
que têm uma letra ou mensagem, às vezes, até imoral,
sendo totalmente impossível o cântico sem a lembrança
do original, corrompendo, em vez de edificar. Tal é o caso do "Segura
o Tcham" que recebeu letra "evangélica", na Bahia,
como "Segura o Cão". Parece brincadeira mas é
verdade, ainda que tenha sido em uma "Igreja Universal". Da
forma como se encaminham as coisas, qualquer hora dessas essa moda chega
no nosso meio.
Realmente, a questão de ritmos não é uma questão
na qual a Bíblia legisla claramente. Cada um de nós, portanto,
tem que formar
a sua própria opinião, sempre procurando os valores maiores
expressos na Palavra de Deus, em nossos relacionamentos pessoais,
sem nunca esquecer a primazia da verdade clara sobre nossas conclusões
pessoais. Por último, existe um outro aspecto de nossa
liturgia que merece ser levantado. Alguém, em algum lugar, decidiu
(e não extraiu da Palavra) que os cânticos não podem
estar mesclados com os diversos passos da liturgia, mas devem ser cantados
de uma só vez, na chamada "hora de louvor". Mais sério
ainda, alguém achou que só se pode louvar a Deus em cânticos
se estivermos em pé. Apesar de já ter dobrado o cabo da
boa esperança, não estou tão velho assim, mas confesso
que é difícil e me canso de ficar em pé 20, 30, às
vezes 45 minutos seguidos, entre tentativas de concentração
de Louvar a Deus afastando os pensamentos pouco santos contra o inventor
que me obrigou a tal tortura. Hinos podem ser cantados sentados; mas "cânticos
espirituais", só podem ser entoados de pé. Alguém
sabe quem legislou isso? Mereceria termos uma palavrinha com ele..
|