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Compor: inspiração divina - transpiração
humana
Autor: Jorge Camargo
http://www.uol.com.br/bibliaworld/jcamargo
Como compositor cristão sou constantemente
abordado com a seguinte questão: "Que inspiração
maravilhosa você teve para escrever essa canção
de que gosto tanto? Teria sido uma experiência arrebatadora?
Algum anjo a cantarolou pra você numa visão?"
Além do constrangimento natural, resultado da percepção
de que em nada sou
superior a ninguém, me pergunto o que gera esse tipo
de indagação.
Creio que em grande parte dos casos, essas perguntas são
fruto de um
conceito que se prolifera entre nós, e que poderia
ser resumido na frase
"Deus me deu...".
Explico melhor: Alguns compositores e artistas cristãos
têm dito pública e
repetidamente que as canções que escrevem foram
dadas por Deus.
Teologicamente perfeita a afirmação. A Bíblia
diz que toda boa dádiva, todo
dom perfeito vem do Pai das luzes... Minha aflição
reside no fato de que,
muitas vezes, essa afirmação é traduzida
como inspiração direta. Ou algo
como, "Deus a sussurrou em meu ouvido em sonho, ou mesmo
acordado, após um
tempo de oração".
Meu problema com tais colocações é, em
princípio, a posição no mínimo
incômoda que elas produzem. Vejamos: Se Deus me deu
uma composição, via
ligação direta, seria esta obra de arte de algum
modo passível de qualquer
avaliação? Como criticar ou questionar algo
que tenha vindo direto de Deus?
A observação óbvia seria a de que, algo
vindo Dele dessa forma jamais
poderia ser criticado ou avaliado. Deus é perfeito.
Penso que tal afirmação funciona como uma espécie
de imunidade clerical. Se
digo que Deus me falou ou me deu algo assim, tão diretamente,
sou
inquestionável, intocável.
Quem ousaria fazer observações ou críticas
construtivas a ... Deus?!!!
Perigoso esse tipo de colocação, você
não acha?
Pra piorar o problema, observamos posturas como essa em várias
áreas na vida
da igreja cristã. Desde o sermão pastoral, que
muitos juram de pé junto que
veio direto do trono de Deus, até as famosas revelações
tão difundidas (e
distorcidas!) em nosso meio.
Gostaria de dizer em poucas linhas minha visão sobre
o processo criativo.
Creio absolutamente que Deus nos dá as canções
que escrevemos. O salmista no
salmo 32, verso 7 diz: "Tu és o lugar em que me
escondo; tu me preservas da
angústia; tu me cinges de alegres cantos de livramento."
(ênfases minhas) As
canções que para Ele cantamos não são
nossas. Ele nos dá.
Creio também, no entanto, que esse processo ocorre
através de um filtro
cultural. Nossa herança enquanto cidadãos de
uma determinada localidade, nos
permite ler o que recebemos de Deus através de nosso
próprio 'filtro'.
Obviamente que, se estamos abertos para as diversas heranças
culturais e
musicais que nos cercam, maiores as possibilidades de absorvermos
a mensagem
divina de maneiras diferentes.
Isso nos leva a ponderar que, a canção que consideramos
mais inspirada ou
ungida tem em si um estilo e uma concepção que
é resultado de alguma berço
cultural humano. O exemplo disso são as canções
de louvor que cantamos na
maioria de nossas comunidades: são, em grande parte,
baladas de origem norte
americana. Nada contra elas, pelo contrário ¾
Se bem que poderíamos como
brasileiros nos aventurar a escrever coisas que digam respeito
mais
diretamente a nós. Creio que Deus iria sorrir com um
ar de aprovação!
Vejo nisso a grande graça Dele, que se faz nosso parceiro
de composições,
inspirando-nos com seu Espírito, e ao mesmo tempo permitindo
que utilizemos
ferramentas que nos cercam para juntos criarmos...
Concluindo, tenho a firme convicção de que uma
música que possamos chamar de
'celeste', só será ouvida no céu. Todas
as demais, são fruto dessa parceria
divina e humana, dessa mistura de Deus com os homens que se
expressa, no seu
exemplo mais radical em Sua própria iniciativa de tornar-se
humano, na
pessoa de Jesus de Nazaré.
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