Valter Junior

CANTINHO DO MUSICO
Coluna do João
14/08/2001


MAMÃE EU SOU GOSPEL!


Autor: João Inácio

Mamãe, eu sou Gospel... mas nem tanto! Ao longo dos 6 anos de existência do programa Cultura Gospel (Rádio Cultura FM, Brasília-DF), tenho tido a grande oportunidade de estar à frente como seu Produtor, o que tem propiciado ver e sentir de perto o novo "boom" da música brasileira, ou, como chamam, música gospel. Pegando uma carona na irreverente música do compositor Carlinhos Veiga (Mamãe, eu sou gospel/Banda Expresso Luz) preferi compartilhar minha preocupação sobre nosso "complicado" universo musical evangélico brasileiro..

As gravadoras do ramo Gospel crescem aceleradamente, rádios e os programas de TV começam a se acotovelar em busca de espaço. A palavra Gospel passou a ser uma forma camuflada do termo "evangélico". É sorvetada gospel, reunião gospel, retiro gospel, já existe até comerciantes quem se anunciam como sendo "a loja gospel mais gospel" (...). A palavra Gospel tem sua origem nos EUA (God + Spell = palavra de Deus), mais precisamente entre os escravos negros, que se convertiam ao evangelho e cantavam quase como um choro, um choro que clamava por libertação. Ainda quando corista de colégio, me impressionava a música Where you There. Emocionava-me saber que aquele canto choroso surgiu num contexto de escravidão, e que apesar dela, a pergunta do compositor era "Where you there when they crucified my Lord?. Traçando um paralelo distante para outras manifestações de composição, notamos que, via de regra, quando a composição é fruto de uma vivência pessoal, a possibilidade de empatia por parte do ouvinte é bem maior. Ou, como bem disse o nosso saudoso Sérgio Pimenta: Só quem sofreu pode avaliar quem sofreu, pode se identificar, pode ter o mesmo sentir..."

Há uns cinco anos, durante a reunião com outros grupos daqui da cidade, um dos organizadores pediu que os músicos, na medida do possível, não usassem brincos durante suas apresentações, uma vez que alguns pastores estariam presentes e, possivelmente, não "pegasse bem". Interessante foi a reação de um músico, típica de gente famosa: - pouco estou ligando para o que os pastores pensam, eles tem uma visão ultrapassada, meu compromisso é com a platéia... e "encheu a boca". Outra vez, recebi uma ligação de um grupo de São Paulo, desejoso de ter suas músicas executadas durante nossa programação. Um comentário de um dos integrantes chamou-me bastante a atenção : "... nosso estilo musical é bem diversificado, só que agora agente tem dado mais ênfase no samba, pois é o que tem vendido melhor, o público cansou daquela coisa de rock ...". Paralelamente a essa conversa, trocando idéias com um compositor daqui de Brasília, ouvi sua preocupação com o crescente movimento de pessoas que o tem solicitado para que componha canções melodiosas (entenda-se balada romântica) e que "onde se diz na letra a palavra Jesus, possa substituir pelo seu nome e, assim, dedicar à namorada, etc.".

Nero, o Imperador Romano, dizia que "o povo só quer pão e circo". É bem certo que nem sempre é assim, mas não é muito difícil atestar seu ponto de vista. O crescimento de igrejas que prometem que "siga a Jesus e todos os seus problemas estão solucionados" é um bom exemplo desse ponto de vista. Na mesma linha, também é fácil notar o crescimento de músicas que tem dado ênfase numa pseudo-adoração contemplativa, mais parecido com um guru oriental (um "Babhydulah"), bem diferente da verdadeira adoração descrita no livro de Romanos. Tem valido muito mais o senso melódico que, estranhamente, tem tendido para melodias melancólicas, levando muito mais a uma depressão-choro-catarse, que à reflexão sincera e entrega ao Senhor. Sem falar também da falta de ética que tem assolado nosso universo gospel tupiniquim. É bem verdade que, preocupação com questões de ordem jurídica e profissional são coisas um tanto novas para nosso meio, e nem todos utilizam a música gospel apenas com o fim de lucro. Mas, é preciso ter uma retomada por parte das igrejas em permitir que os "levitas" que estejam ministrando (com música ou não) em suas igrejas, tenham uma vida digna e coerente com aquilo que estão pregando. É preciso ter um pouquinho daquele sentimento que imperava nos anos 80, quando se discutia se era lícito ou não utilizar bateria nos cultos, bater palmas e outras coisas. É fundamental haver uma visão mais crítica por parte do povo de Deus, como tinham os crentes de Beréia e que chegaram a receber elogios do apóstolo Paulo, por conta desse comportamento. A continuar assim, sob o pretexto de que "muitos vão escutar e vão se converter", corremos o risco de fazer uma apologia da mediocridade e envergonharmos o precioso evangelho ensinado por Jesus. A música dentro do reino de Deus é apenas um pano de fundo para a trama principal. Verdadeiro adorador no reino de Deus não é aquele que, com um belíssimo paletó, solenemente fica de pé quando se entoa Aleluia de Handel, Castelo Forte ou qualquer homenagem à Reforma. Tampouco é aquele que rasga suas roupas, deixa seus cabelos crescer, extrapola num belo solo de guitarra e de quando em vez soltam um gemido que deduzimos ser a palavra Jesus. Na verdade, ambos podem ter estes mesmos atos como atos de louvor a Deus, desde que sejam reflexos de uma vida que se entrega "como sacrifício vivo e agradável em um verdadeiro culto racional", basta ler o livro de Romanos. Está tudo lá sobre a verdadeira adoração.

Mas nem tudo é tão ruim assim neste controverso ambiente musical. O mercado está em extrema profusão. O joio e o trigo saem à luta e conseguimos ver que existe luz no fim do túnel... e não é o trem! A evolução da qualidade na produção musical é fácilmente notada. O acabamento sonoro da música produzida pela OCEBRAS, a preciosa riqueza harmônica do Estilo de Vida, o carisma das bandas Raízes e Livre Arbítrio, Valter Jr., Atilano Muradas, Juízo Final, João Alexandre, Brother Simion, Guilherme Kerr, Expresso Luz, Nelson Bomilcar, Luz em Canto, Aristeu Pires Jr., Quico Fagundes, Candeias e tantos outros são bons exemplos de uma boa música com mensagens que refletem o compromisso do compositor com o Senhor das composições.

E você como povo, qual tipo de pão que você tem procurado ingerir? E você, levita, que tipo de pão você tem dado? muitos querem "pão e circo". O caminho mais cômodo é o de atender a tais pedidos. Do povo, Deus espera que se alimentem da sua palavra, a Bíblia. Dos levitas, Deus espera que para seu povo seja dado pão, pão da vida e até sua própria vida, e isto significa quase sempre não fazer "sucesso" no conceito humano.

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