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MAMÃE EU SOU GOSPEL!
Autor: João Inácio
Mamãe, eu sou Gospel... mas nem tanto!
Ao longo dos 6 anos de existência do programa Cultura
Gospel (Rádio Cultura FM, Brasília-DF), tenho
tido a grande oportunidade de estar à frente como seu
Produtor, o que tem propiciado ver e sentir de perto o novo
"boom" da música brasileira, ou, como chamam,
música gospel. Pegando uma carona na irreverente música
do compositor Carlinhos Veiga (Mamãe, eu sou gospel/Banda
Expresso Luz) preferi compartilhar minha preocupação
sobre nosso "complicado" universo musical evangélico
brasileiro..
As gravadoras do ramo Gospel crescem aceleradamente,
rádios e os programas de TV começam a se acotovelar
em busca de espaço. A palavra Gospel passou a ser uma
forma camuflada do termo "evangélico". É
sorvetada gospel, reunião gospel, retiro gospel, já
existe até comerciantes quem se anunciam como sendo
"a loja gospel mais gospel" (...). A palavra Gospel
tem sua origem nos EUA (God + Spell = palavra de Deus), mais
precisamente entre os escravos negros, que se convertiam ao
evangelho e cantavam quase como um choro, um choro que clamava
por libertação. Ainda quando corista de colégio,
me impressionava a música Where you There. Emocionava-me
saber que aquele canto choroso surgiu num contexto de escravidão,
e que apesar dela, a pergunta do compositor era "Where
you there when they crucified my Lord?. Traçando um
paralelo distante para outras manifestações
de composição, notamos que, via de regra, quando
a composição é fruto de uma vivência
pessoal, a possibilidade de empatia por parte do ouvinte é
bem maior. Ou, como bem disse o nosso saudoso Sérgio
Pimenta: Só quem sofreu pode avaliar quem sofreu, pode
se identificar, pode ter o mesmo sentir..."
Há uns cinco anos, durante a reunião
com outros grupos daqui da cidade, um dos organizadores pediu
que os músicos, na medida do possível, não
usassem brincos durante suas apresentações,
uma vez que alguns pastores estariam presentes e, possivelmente,
não "pegasse bem". Interessante foi a reação
de um músico, típica de gente famosa: - pouco
estou ligando para o que os pastores pensam, eles tem uma
visão ultrapassada, meu compromisso é com a
platéia... e "encheu a boca". Outra vez,
recebi uma ligação de um grupo de São
Paulo, desejoso de ter suas músicas executadas durante
nossa programação. Um comentário de um
dos integrantes chamou-me bastante a atenção
: "... nosso estilo musical é bem diversificado,
só que agora agente tem dado mais ênfase no samba,
pois é o que tem vendido melhor, o público cansou
daquela coisa de rock ...". Paralelamente a essa conversa,
trocando idéias com um compositor daqui de Brasília,
ouvi sua preocupação com o crescente movimento
de pessoas que o tem solicitado para que componha canções
melodiosas (entenda-se balada romântica) e que "onde
se diz na letra a palavra Jesus, possa substituir pelo seu
nome e, assim, dedicar à namorada, etc.".
Nero, o Imperador Romano, dizia que "o
povo só quer pão e circo". É bem
certo que nem sempre é assim, mas não é
muito difícil atestar seu ponto de vista. O crescimento
de igrejas que prometem que "siga a Jesus e todos os
seus problemas estão solucionados" é um
bom exemplo desse ponto de vista. Na mesma linha, também
é fácil notar o crescimento de músicas
que tem dado ênfase numa pseudo-adoração
contemplativa, mais parecido com um guru oriental (um "Babhydulah"),
bem diferente da verdadeira adoração descrita
no livro de Romanos. Tem valido muito mais o senso melódico
que, estranhamente, tem tendido para melodias melancólicas,
levando muito mais a uma depressão-choro-catarse, que
à reflexão sincera e entrega ao Senhor. Sem
falar também da falta de ética que tem assolado
nosso universo gospel tupiniquim. É bem verdade que,
preocupação com questões de ordem jurídica
e profissional são coisas um tanto novas para nosso
meio, e nem todos utilizam a música gospel apenas com
o fim de lucro. Mas, é preciso ter uma retomada por
parte das igrejas em permitir que os "levitas" que
estejam ministrando (com música ou não) em suas
igrejas, tenham uma vida digna e coerente com aquilo que estão
pregando. É preciso ter um pouquinho daquele sentimento
que imperava nos anos 80, quando se discutia se era lícito
ou não utilizar bateria nos cultos, bater palmas e
outras coisas. É fundamental haver uma visão
mais crítica por parte do povo de Deus, como tinham
os crentes de Beréia e que chegaram a receber elogios
do apóstolo Paulo, por conta desse comportamento. A
continuar assim, sob o pretexto de que "muitos vão
escutar e vão se converter", corremos o risco
de fazer uma apologia da mediocridade e envergonharmos o precioso
evangelho ensinado por Jesus. A música dentro do reino
de Deus é apenas um pano de fundo para a trama principal.
Verdadeiro adorador no reino de Deus não é aquele
que, com um belíssimo paletó, solenemente fica
de pé quando se entoa Aleluia de Handel, Castelo Forte
ou qualquer homenagem à Reforma. Tampouco é
aquele que rasga suas roupas, deixa seus cabelos crescer,
extrapola num belo solo de guitarra e de quando em vez soltam
um gemido que deduzimos ser a palavra Jesus. Na verdade, ambos
podem ter estes mesmos atos como atos de louvor a Deus, desde
que sejam reflexos de uma vida que se entrega "como sacrifício
vivo e agradável em um verdadeiro culto racional",
basta ler o livro de Romanos. Está tudo lá sobre
a verdadeira adoração.
Mas nem tudo é tão ruim assim
neste controverso ambiente musical. O mercado está
em extrema profusão. O joio e o trigo saem à
luta e conseguimos ver que existe luz no fim do túnel...
e não é o trem! A evolução da
qualidade na produção musical é fácilmente
notada. O acabamento sonoro da música produzida pela
OCEBRAS, a preciosa riqueza harmônica do Estilo de Vida,
o carisma das bandas Raízes e Livre Arbítrio,
Valter Jr., Atilano Muradas, Juízo Final, João
Alexandre, Brother Simion, Guilherme Kerr, Expresso Luz, Nelson
Bomilcar, Luz em Canto, Aristeu Pires Jr., Quico Fagundes,
Candeias e tantos outros são bons exemplos de uma boa
música com mensagens que refletem o compromisso do
compositor com o Senhor das composições.
E você como povo, qual tipo de pão
que você tem procurado ingerir? E você, levita,
que tipo de pão você tem dado? muitos querem
"pão e circo". O caminho mais cômodo
é o de atender a tais pedidos. Do povo, Deus espera
que se alimentem da sua palavra, a Bíblia. Dos levitas,
Deus espera que para seu povo seja dado pão, pão
da vida e até sua própria vida, e isto significa
quase sempre não fazer "sucesso" no conceito
humano.
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