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A INVERSÃO DA CONVERSÃO
"O caminho da conversão
continua sendo o da nossa transformação em Cristo,
da reconciliação com Deus, da renúncia
ao pecado, da
sujeição ao senhorio de Cristo, da santidade
do caráter. É a transformação
da nossa natureza caída na imagem de Deus"
Os Guinness, um dos profetas da modernidade, escreveu no início
da década de oitenta um artigo intitulado Cuidado com
a jibóia.
Neste artigo, ele comenta os perigos e desafios da modernidade
para a fé cristã, e compara estes perigos ao
abraço da jibóia que mata
suas vítimas estrangulando-as devagar, sem nenhuma
pressa. Para ele, a modernidade vem fazendo com o cristianismo
aquilo que Nero,
Dioclesiano e outros tentaram fazer através da violência
e perseguição e não conseguiram. A modernidade
vem lentamente
estrangulando a fé e o espírito cristão
sem que a cristandade se dê conta do abraço da
jibóia e apresente qualquer resistência.
Um dos fenômenos modernos que vem me chamando a atenção
é o do velho te.+ma da conversão. No passado,
a experiência da conversão era caracterizado
por uma reforma radical da vida. O convertido era alguém
que renunciava o pecado, o mundo e a carne para viver para
Cristo, obedecendo a sua Palavra, buscando fazer a sua vontade,
negando a si mesmo e se afirmando pela fé em Cristo.
Éramos
convertidos a Cristo. Na linguagem de Isaías, esta
conversão envolvia uma transformação
dos nossos caminhos e pensamentos,
levando-nos a considerar como superiores e melhores os caminhos
e os pensamentos de Deus.
A modernidade vem lentamente mudando este conceito. Eu diria
que hoje, o fenômeno mais comum que observo em muitos
testemunhos
cristãos, não é mais o de nossa conversão
a Cristo mas a conversão de Cristo a nós. Digo
isto porque o que normalmente ouvimos, nos
relatos das experiências de muitos cristãos modernos,
são histórias das ações de Deus
em suas vidas resolvendo seus problemas, curando suas enfermidades,
livrando-os do mal e dos perigos, abrindo portas para novas
oportunidades, abençoando seus planos e projetos. Obviamente
isto não tem nada de mais, é a expressão
mais legítima da presença cuidadosa de Deus
em nossas vidas. No entanto, quando tornamo-nos o centro das
ações de Deus e julgamos que sua existência
só é justificada pelos benefícios que
recebemos dele, invertemos a ordem da conversão e,
ao invés de sermos convertidos a Cristo, é ele
quem se converte a nós, transformando-se numa espécie
de "grande mágico" ocupado em tornar nossa
vida melhor e mais agradável.
Por outro lado, me chama também a atenção
a ausência cada vez maior de testemunhos que expressem
as mudanças e transformações da
vida e do caráter, que demonstrem a disposição
do coração e da alma humana em se deixar moldar
pela natureza divina, testemunhos que
apontem para uma conversão de nós a Cristo.
Somos pecadores, a queda maculou a imagem de Deus em nós,
nosso caráter foi corrompido e nos tornamos, por natureza,
"filhos da desobediência", rebeldes e egoístas,
sem um referencial externo que nos apontasse o caminho de
volta para Deus e para a reconstrução da "Imago
Dei".
Jesus Cristo, o varão perfeito, o Filho do homem, que
manifestou através da encarnação a mais
plena e completa humanidade, viveu
entre nós para ser o caminho que nos leva de volta
ao propósito do Criador, o referencial que precisamos.
A conversão, ou numa
expressão mais comum entre nós, o "aceitar
a Cristo", significa permitir que a vida de Cristo seja
agora, pelo poder do seu
Espírito, vivida por nós, convertendo-nos e
transformando-nos em criaturas novas a fim de afirmarmos como
o apóstolo Paulo: "Não mais
eu, mas Cristo vive em mim".
Esta afirmação não significa que Paulo
havia perdido sua identidade própria, passando a ser
uma espécie de marionete ou
"zumbi" religioso. O que ele afirma é que
foi convertido a Cristo, sua vida foi transformada por Cristo,
seus desejos, emoções e
vontade, foram e estavam sendo reordenados aos propósitos
do Criador. Paulo não estava preocupado se Cristo iria
atender todas as
demandas de sua vida e ministério, satisfazer suas
necessidades ou atender suas exigências pessoais. Paulo
estava interessado naquilo
que Cristo estava fazendo em sua vida, nas mudanças
que o Evangelho havia realizado em seu coração
e alma. Paulo mantinha seu olhar
sempre fixo em Cristo, deixando para trás tudo aquilo
que o mantinha preso no seu passado para experimentar, dia
após dia, o poder da
ressurreição que fazia dele um novo homem.
A conversão de Cristo a nós é perigosa.
É uma inversão que nos coloca numa situação
de enorme risco. No salmo 106 há uma
advertência contra isto. O povo de Israel foi grandemente
abençoado por Deus que os libertou do Egito e dos seus
opressores. No entanto,
logo se esqueceram de tudo o que Deus lhes havia feito e se
entregaram a suas paixões, fazendo o que desejavam.
Em meio a esta
busca de sua própria realização, lutando
pelo seu "direito de ser feliz", fizeram suas orações
pedindo para que Deus abençoasse seus
desejos desordenados e seus caminhos falsos. Diante disto,
o salmista afirma que "Deus lhes concedeu o que pediram,
mas fez
definhar-lhes a alma". As conseqüências de
uma conversão de Cristo a nós podem nos levar
ao abismo mais profundo do egoísmo humano e nos afastar
da vida liberta e verdadeiramente humana que Cristo nos oferece.
A conversão nunca é o processo de transformar
Cristo numa espécie de "gênio da lâmpada",
que existe apenas para atender nossas
demandas e necessidades. Este caminho inverso pode parecer
fascinante, nos dá a sensação de ter
à nossa disposição alguém forte
e poderoso para nos defender, atender aos nossos interesses,
satisfazer nossos desejos e alimentar nosso ego insatisfeito
e
frustrado. Não nego o amor de Deus e seu desejo enorme
de nos abençoar, mas o caminho da conversão
continua sendo o da nossa
transformação em Cristo, da reconciliação
com Deus, da renúncia ao pecado, da sujeição
ao senhorio de Cristo, da obediência à sua
Palavra e da santidade do caráter. É a transformação
da nossa natureza caída na imagem de Deus, é
ser cada dia mais parecido com
Jesus.
A advertência de Os Guinness é real. A jibóia
está aí estrangulando os cristãos, lenta
e silenciosamente. A busca pela
auto-realização, o narcisismo religioso, a sedução
da propaganda, têm invertido o conceito da experiência
mais primária da fé cristã.
Se começamos pelo caminho inverso, correremos o risco
de ver nossa alma definhada. Cuidado com a jibóia!
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