|
O LIMITE DO CONTENTAMENTO
No filme Terra das Sombras, que retrata
o romance e casamento do grande escritor inglês C. S.
Lewis, há uma cena que, para a maioria
dos espectadores, passa desapercebida, mas que me chama muito
a atenção. Trata-se da visita que ele e sua
mulher fizeram logo após o
casamento a um vale cuja gravura o havia acompanhado desde
sua infância num quadro na sala de sua casa e que, para
ele,
representava o paraíso. Depois de percorrer alguns
quilômetros pelas estradas estreitas do interior da
Inglaterra, chegaram enfim ao vale
do quadro. Depois de caminhar e admirar a beleza do lugar,
ele diz para sua esposa que, para ele, aquilo bastava, não
precisava ver
mais nada, virar nenhuma curva, que aquilo era tudo quanto
gostaria de ver e contemplar. Fiquei pensando o quanto é
difícil para o homem
dizer estas simples palavras: Basta, está bom. A medida
do contentamento nunca encontra o seu limite. Parece que é
algo que
sempre está por acontecer, mas nunca acontece. Normalmente,
dizemos que no dia em que tivermos este ou aquele bem, ou
alcançamos esta ou aquela virtude ou graça,
aí então encontramos a medida de nosso contentamento.
O fato é que sempre haverá algo por atingir,
um bem que ainda não alcançamos, uma conquista
que nos falta. O contentamento está sempre na próxima
curva. A indústria do marketing
tem como missão manter a alma e o coração
humano satisfeitos. Há sempre algo que você ainda
não fez e que precisa fazer ou adquirir
para ser realmente feliz: uma viagem, um objeto, um romance,
uma experiência, uma bênção. Enquanto
você não experimentar aquilo você
não é uma pessoa feliz, completa. Muitos vivem
num estado de completa ansiedade e inquietação,
numa sensação de que não podem
perder nada, nenhuma oportunidade, porque disto depende o
seu contentamento. O apóstolo Paulo, em sua carta aos
Filipenses, afirma
que aprendeu a viver contente em toda e qualquer situação.
Para ele, tanto a humilhação quanto a honra,
tanto a riqueza quanto a pobreza,
tanto a fartura quanto a fome, não eram impedimento
para o seu estado de contentamento. Para ele a satisfação
era um estado de alma
que não dependia das coisas que possuía ou experimentava.
Que estado é este? Como é possível experimenta-lo
em nossos dias? Jeremiah Burroughs, um puritano que nasceu
no último ano do século 16 e viveu até
1646, escreveu um tratado intitulado A rara jóia do
contentamento cristão, publicado pela primeira vez
dois anos após a sua morte, em 1648. Para ele, o contentamento
é um mistério difícil
para o homem compreender, e somente a graça de Deus
é que pode nos ensinar a combinar tristeza e alegria
numa experiência comum de paz e contentamento. Para
Jeremiah, contentamento é o fruto de um coração
grato. Numa de suas afirmações, ele diz que
um coração
gracioso encontra o contentamento na aliança que Deus
fez com ele. De fato, há um grande mistério
nesta afirmação. Jesus mesmo ensinou
aos seus discípulos que não deveriam andar ansiosos
pela vida quanto ao dia de amanhã, porque a ansiedade
por mais intensa que seja, não pode jamais acrescentar
qualquer coisa ao curso da vida do um homem. Ele diz que as
indagações sobre o dia de amanhã pertencem
aos gentios, aqueles que não conhecem a Deus, nem experimentaram
o seu amor. Porque aqueles que conhecem a natureza do amor
divino sabem que o Pai celeste conhece todas as nossas necessidades
antes mesmo que informemos a Ele.
É então que o nosso Senhor sugere que devemos
buscar em primeiro lugar seu Reino e sua justiça, e
as demais coisas nos serão
acrescentadas. A pauta de oração daquele que
experimentou a serenidade de contentamento passa a ser o Reino
e a justiça, e não
as outras coisas. Se formos sinceros, iremos constatar que
a pauta de nossas orações são determinadas
pela nossa ansiedade e
inquietação, e não pela certeza serena
e real do cuidado paterno de Deus sobre a vida daqueles com
quem ele celebrou uma eterna aliança.
Jesus conclui este discurso convidando seus discípulos
a não temer, a não viver ansiosos, buscando
antecipar as aflições do dia de
amanhã, resistir as inquietações de ter
e possuir, mas compreender o fato de que o Pai se agradou
em lhes dar o seu Reino. Eis aqui outro
grande mistério. Possuir o Reino de Deus em nós
se traduz numa manifestação de Deus mesmo na
alma humana que, por si só, é
suficiente para promover o contentamento, diz Jeremiah. O
contentamento cristão reside no fato de que o Reino
já nos foi dado.
O contentamento para Paulo não significava uma acomodação
em relação aos desafios da vida e da missão,
nem tampouco um desinteresse por melhorar o crescer. Como
já disse, trata-se de um estado de alma que descobriu
que possui em Cristo tudo quanto lhe é necessário
para sua alegria, paz e comunhão com Deus e os homens.
Que o contentamento não será encontrado na próxima
curva, na visita ao shopping center, no novo emprego ou nas
coisas simples e rotineiras, nas experiências que a
graça de Deus nos concede dia a dia, nos encontros
com amigos, nas tristezas e dores que vivemos. Tudo isso faz
parte da existência humana, negá-las é
negar a própria vida. Para Paulo, o contentamento que
experimentava a riqueza e pobreza, na fartura ou miséria,
eram reflexos de uma mesma realidade vivida na presença
de Deus. A certeza de que Deus estava nele, que havia concedido
a ele o seu Reino, transcendia suas experiências pessoais
e as colocava num universo eterno. Penso que foi isso que
Jesus experimentou. Sua vida não foi sempre um arranjo
de fatos agradáveis. Experimentou o
abandono, angústia, tristeza, traição,
alegria e exultação, e todas essas experiências
fizeram parte do Reino que havia sido entregue.
Contentamento não significa não passar pelos
vales sombrios da morte, mas gozar a plenitude do Reino, do
amor, da justiça e da paz.
Para terminar, quero mais uma vez citar C. S. Lewis, que no
mesmo filme mencionado no início deste artigo diz que
Deus não nos criou
para a felicidade, mas para amar e sermos amados. A felicidade
como um fim em si mesma pode parecer que só será
encontrada na próxima curva, mas quando buscamos amar
e ser amados, a encontramos onde estamos. Não precisamos
virar nenhuma outra curva. Aqui está bom.
|