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O NOVO ATEU
"Hoje, o ateu não é
mais aquele que não crê, mas aquele que não
encontra relevância para Deus na sua rotina. O novo
ateísmo não
precisa negar a fé; apenas cria substitutos para ela.
Mantém o crente na igreja, mas longe do seu Salvador"
Sabemos que existem vários tipos de ateus. Existem
aqueles que não crêem em Deus por não
encontrarem respostas para os grandes
dilemas da humanidade como violência, miséria
e sofrimento. Não conseguem relacionar um Deus de amor
com o sofrimento humano. Outros
não crêem porque não encontram uma razão
lógica e racional que explique os mistérios
da fé, como a criação do mundo, o dilúvio,
o
nascimento virginal, a ressurreição, céu,
inferno etc. Diante de temas tão complexos que requerem
fé num Deus pessoal, Criador e
Redentor, muitos não conseguem crer naquilo que lhes
parece racionalmente absurdo.
Os dois tipos de ateus já mencionados são inofensivos.
Na verdade, são pessoas que buscam respostas, são
honestos e não
aceitam qualquer argumento barato como justificativa para
suas grandes dúvidas. São sinceros e lutam contra
uma incredulidade que
os consome, uma falta de fé que nunca encontra resposta
para os grandes mistérios da vida e de Deus.
No entanto há um outro tipo de ateu, mais dissimulado,
que cresce entre nós, que crê em Deus e não
apresenta nenhuma dúvida
quanto aos mistérios da fé, nem em relação
aos grandes temas existenciais. Ele vai à igreja, canta,
ora e chega até a contribuir.
É religioso e gosta de conversar sobre os temas da
religião. Contudo, a relevância de Cristo, sua
morte e ressurreição para a
vida e a devoção pessoal é praticamente
nula. São ateus crédulos. O ateu moderno não
é mais somente aquele que não crê, mas
aquele para quem Deus não é relevante.
Este é um novo quadro que começa a ser pintado
nas igrejas cristãs. Saem de cena os grandes heróis
e mártires da fé do passado
e entram os apáticos e acomodados cristãos modernos.
Aqueles cristãos que entregaram suas vidas à
causa do Evangelho, que
deixaram-se consumir de paixão e zelo pela Igreja de
Cristo, que viveram com integridade e honraram o chamado e
a vocação que
receberam do Senhor, que sofreram e morreram por causa de
sua fé, convicções e amor a Cristo, fazem
parte de uma lembrança remota que às vezes chega
a nos inspirar.
Os cristãos modernos crêem como os outros creram,
mas não se entregam como se entregaram. Partilham das
mesmas convicções,
recitam o mesmo credo, freqüentam as mesmas igrejas,
cantam os mesmos hinos e lêem a mesma Bíblia,
mas o efeito é tragicamente
diferente. É raro hoje encontrar alguém em cujo
coração arde o desejo de ver um amigo, parente,
colega de trabalho ou escola
convertendo-se a Cristo e sendo salvo da condenação
eterna. Os desejos, quando muito, se limitam a visitar uma
igreja, buscar uma
"bênção", receber uma oração;
mas a conversão a Cristo, o discipulado com todas as
suas implicações, são coisa que não
nos
atraem mais.
Os anseios pela volta de Cristo, o desejo de nos encontrarmos
com ele e ver restaurada a justiça e a ordem da criação
ficaram para
trás. Somente alguns saudosos dos velhos tempos lembram-se
ainda dos hinos que enchiam de esperança o coração
dos que aguardavam a manifestação do Reino.
A preocupação com a moral e a ética,
com o bom testemunho, com a vida santa e reta não nos
perturba mais -
somos modernos, aprendemos a respeitar o espaço dos
outros. O cuidado com os irmãos, o zelo para que andem
nos caminhos do Senhor,
as exortações, repreensões e correções
não fazem parte do elenco de nossas preocupações.
Afinal, cada um é grande e sabe o que faz.
Enfim, somos ateus modernos, o pior tipo de ateu que já
apareceu. Citamos com convicção o Credo Apostólico,
mas o que cremos
não tem nenhuma relevância com a forma como vivemos.
A pessoa de Cristo para muitos é apenas mais uma grife
religiosa, não uma pessoa que nos chama para segui-lo.
O ateísmo moderno se caracteriza pela irrelevância
da fé, das convicções, do significado
da igreja e da comunhão dos santos.
A irrelevância de Deus para a vida moderna é
intensificada pela cultura tecnocrática. Temos técnicas
para tudo: para ter um
matrimônio perfeito, criar filhos felizes e obedientes,
obter plena satisfação sexual no casamento,
passos para uma oração eficaz, como
conseguir a plenitude do Espírito Santo e muitos outros
"como fazer" que entopem as prateleiras das livrarias
e o cardápio dos
congressos. A sociedade moderna vem criando os métodos
e as técnicas que reduzem nossa necessidade de Deus,
a dependência dele e a relevância da comunhão
com ele. Chamamos uma boa música de adoração,
um convívio agradável de comunhão, uma
moral sadia de santificação, assiduidade nos
programas da igreja de compromisso com o Reino de Deus.
As técnicas não apenas criam atalhos para os
caminhos complexos da vida, como procuram inverter os pólos
de atenção e dependência.
Tornamo-nos mais dependentes de nós do que de Deus,
acreditamos mais na eficiência do que na graça,
buscamos mais a competência do que a unção,
cremos mais na propaganda do que no poder do Evangelho. Tenho
ouvido falar de igrejas que são orientadas por profissionais
de planejamento estratégico. Estudam o perfil da comunidade,
planejam seu desenvolvimento, arquitetam seu crescimento e,
de repente,
descobrem que funcionam, crescem, são eficientes, e
não dependem de Deus para nada do que foi planejado.
Com ou sem oração a igreja vai crescer, vai
funcionar. Deus tornou-se irrelevante. Tornamo-nos ateus crentes.
A minha preocupação não é simplesmente
criticar o mundo religioso abstrato, superficial e impessoal
que criamos ou criticar
a tecnologia moderna que, sem dúvida, pode e tem nos
ajudado. Minha preocupação é com o coração
cada vez mais distante, mais abstrato,
mais centralizado naquilo que não é Deus, mais
dependente das propagandas e estímulos religiosos,
mais interessado no consumo
espiritual do que numa relação pessoal com Deus.
Como disse, o ateu hoje não é mais aquele que
não crê, mas aquele que não encontra relevância
para Deus na sua rotina, não
precisa da comunhão dele para a vida. A sutileza do
novo ateísmo é que ele não precisa negar
a fé, apenas cria substitutos para ela.
Mantém o crente na igreja, mas longe do seu Salvador.
Este ateu está muito mais presente entre nós
do que imaginamos.
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