Com raiva de Deus

Escrito por Valter Junior.

Me lembro de um bilhete que uma esposa escreveu para seu marido: "Te odeio. Com amor, Mary"

Mandei um bilhete desses pra Deus nessa manhã.Na realidade odeio o que Ele fez ou permitiu e não a Ele. Mas por causa do que Ele fez ou permitiu, vi meu coração com ódio de quem mais amo.

O coração é enganoso e tem o dom de confundir as coisas.

Senti raiva de Deus por causa do que Ele fez.

Meu bilhete foi assim: "Estou triste por estar sentindo ódio de você. Te amo, você sabe que te amo. Você sabe todas as coisas. Valter Jr."

Quando em minhas cirurgias na perna com paralisia infantil tive que passar por procedimentos como tirar pontos, tirar gesso e ser examinado de modo que o médico ficava mexendo e apertando para saber se doía e finalmente conseguia o que queria, eu dava um grito de dor, tinha vontade de avançar no pescoço do médico e esganá-lo. Fui crescendo e da primeira cirurgia quando eu tinha cinco anos até a última com dezoito anos, muita coisa mudou. Sentia o mesmo ódio, mas entendia que tudo aquilo era necessário. Meu coração ainda me pedia para eu esganar aquele homem que procurava um lugar em que doesse em minha perna e parecia não querer parar enquanto não encontrasse. Eu já havia entendido a razão do médico agir assim. Apesar disso, via o ódio surgindo no meu coração e um clamor por justiça também. Com a minha pouca maturidade dos dezoito anos eu acalmava meu coração lhe dizendo que aquilo, lamentavelmente, era necessário e que não estávamos sendo alvos de qualquer injustiça.

Entendo que Deus tem suas razões e que para a concretização do plano Dele, levar Glaucia foi necessário. Sei também que não estou sendo alvo de qualquer injustiça. Mas em meu peito há um coração e não um cérebro.

Não tenha medo de ser fulminado por Deus com um raio sobre sua cabeça por estar lendo meu desabafo. Se alguém merece isso sou eu e Ele ainda não fez isso.

Quando ouvimos nossos filhos nos dizendo que nos odeiam, não os matamos, os amamos.

Não estou ofendendo a Deus, tentando agredi-lo, me revoltando ou deixando de amá-lo. Estou apenas sendo sincero ao falar a Ele o que Ele já viu claramente em meu coração.

Não é um sentimento constante, mas as vezes surge.

Meu coração mal também já foi capaz de muitos sentimentos belos para com Deus, e ainda preserva essa capacidade, mas não nega ser capaz também de sentimentos como o ódio e a raiva.

Dou graças a Deus pelo fato Dele permanecer fiel ao nosso compromisso, mesmo quando eu sou infiel.

Ele me ama mesmo quando o odeio.

Ele me faz voltar sempre ao nosso compromisso de amor que não se torna maior quando sinto amor por Ele e que não diminui quando sinto ódio.

Acho que o que mais me deixa triste é ver que foi possível acontecer algo que me levasse a ter esse sentimento pra com Deus.

Fique tranquilo quanto a mim, pois se o amor é algo a ser aprendido e reaprendido, o ódio só precisa ser provocado. O ódio passa da mesma forma que surge em mim. O amor permanece, pois Deus é amor, e quando eu tinha treze anos, Ele decidiu vir habitar em mim.

Estamos bem, eu e o pai celeste, apesar de tudo e graças a Ele.

Tenho esperança de que a raiva e o ódio darão lugar a outros sentimentos e que não voltarão mais. Tenho esperança.

Dou Graças a Deus por ser apenas humano e capaz de sentimentos contraditórios. Não sou um anjo ou um ser elevado. Pelo contrário, não passo de um miserável pecador. Aos que lêem essas palavras, resistam a tentação ou inclinação de tentar defender a Deus ou explicar Suas razões. Pode ser injusto e insensato o que senti, mas bem sei que as emoções não tem qualquer compromisso com a razão.

George MacDonald diz: "O Senhor veio para enxugar nossas lágrimas. É o que ele está fazendo agora; é o que ele fará tão logo possa; e, enquanto não puder fazê-lo, proverá para que as lágrimas fluam sem amargura; ele nos dirá que chorar é uma bênção, pois traz consolo. Aceite agora o seu consolo, e prepare-se assim para o consolo que virá."